domingo, 29 de janeiro de 2023

Manhã de domingo

Adormecido e torpe
os olhos mal conseguem se abrir para a luz
Esquecido e funesto
os músculos já não sabem se mover
Desaprovado e ermo
não distingo a escuridão do silencio 
Dias ordinários sem ter o que se fazer de errado
Nuvens em rasante sobre a íris despreocupada
Não são rasas as poças de lágrimas dessa jornada
As escolhas e as chances estão perdidas no vento
Silenciado e obscuro
nenhuma melodia me fará despertar
Lancinante e atroz
sem palavras para descrever o caos que se instala
Efêmero e derrotado
seria melhor não ter aparecido, quiçá não ter lembrado...


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Menos de mim

O sol se deitou no oeste, as nuvens cobriram o céu
outro dia se foi tranquilo, menos eu...
As horas parecem irrelevante, as primeiras e as últimas
outra volta no relógio na parede, menos eu...
Uma música de dez anos atrás, a mesma emoção
outra lembrança repetida, menos eu...
O que eu deveria fazer com essas palavras?
Juntá-las em um pote no alto da estante?
Emoldurá-las na parede mais vazia da sala?
Não sei ao certo o que eu deveria sentir... ou não
 
Os carros passam velozes lá embaixo
Sons invadem a noite da cidade, menos eu...
Já é tarde da noite e não consigo me desligar
as cordas que me prendem são fortes demais
Minhas dores, minhas angustias vívidas ainda hoje
Está difícil para dormir e esquecer o inferno
O que eu deveria fazer com essas palavras?
Por que eu deveria esperar o amanhã?
Onde está meu remédio para o esquecimento?
 
As apostas foram feitas para mais um ano
Todos contam com a sorte, menos eu.

sábado, 17 de dezembro de 2022

Não se pode sair da conexão

A luz se levanta das frias montanhas

Os raios despertam as copas das árvores 

Meus olhos outrora cerrados se inclinam a se abrir

Frente a mim o azul infinito de um céu esquecido 

nas palmas de minhas mãos a grama orvalhada...

Sinto o som dos animais matinais

Sinto o balanço dos troncos mais altos

Sinto o movimento do riacho ao longe

Sinto os pássaros nas copas e seus saltos

Cambaleio e levanto enchendo os pulmões

Com os aromas de flores e partículas de luz

Paraliso-me e concentro-me - sou uma árvore

Meus pés se aterram e o vento me abraça

circulando-me pedindo uma dança...

Sinto a força do bater das menores asas

Sinto o calor e a brisa na palma da mão

Sinto as mudanças climáticas a cada momento

Sinto o pólen, o aroma, a fragrância do verão

sábado, 29 de janeiro de 2022

Absorto. 446.

 

Confissões da madrugada em sustos pré-programados de experiências sensoriais anteriores, revelados em sonhos, despertados em reflexões... Neste momento são 4:46 da manhã de um sábado do dia 29 de janeiro de 2022. O futuro, talvez; uma distopia avassaladora dos sentidos que se revela assustadoramente realidade.  Obscuro? Delírios de um alguém que se profetiza dolorosamente outrem. Aquilo que existe é aquilo que deveria existir, ou não? Simplória questão não relevante. Este escrito não é sobre isso.

Despertei-me, e a primeira palavra de nosso vocabulário que me surge como materializada dentro de mim, foi esta: absorto. Caso eu estivesse plenamente feliz poderia supor que inconscientemente me foram lançadas dois outros vocábulos: absurdo e surto. Mas, nesta situação, não me encontro prontamente capaz de lidar com esse jogo de palavras. Falta-me capacidade cognitiva para estabelecer reflexos reais neste contexto, ora existisse contexto. Se fosse o caso de eu me apavorar e abruptamente tentar ignorar, poderia ter voltado a dormir, e tentado mais forte ainda a não retornar para o sonho que me fez sentir-me desta maneira; nova e estranha, sensível e complexa, este é um novo conceito que engulo aos poucos, arriscando-me absorver.

Essa percepção, nunca antes me fora tão intensa. Não que minha memória recente não possa entendê-la, ao invés de realmente afirmar algo. A profundidade em que me deparo agora é angustiante. Converto-me na persona que um dia, há muito tempo esquecida, pensei que poderia ser. Não me tornei essa persona. Esqueci-a. Adormeci-a... Palavras de meu imaginário próprio, ainda que não alcance os neologismos pessoais, estas tantas palavras de meu vocabulário que anos não utilizo em vida, retornam e me testam a organiza-las, e em contrapartida, meus pensamentos não estão congruentes com meus dedos, quiçá com minha vontade de estar desperto neste momento.

A combinação do êxtase e do medo deste processo inconsciente me trouxe de volta de um mundo horrível, onde me tornei um mero observador do vácuo de ilusões e ideias que minha vida se tornara. Não sei precisar, obviamente, quanto tempo me mantive preso nesta narrativa surrealista, mas o fato é que ela me afetou, e o resultado disso já não sei concluir. Retornando ao acontecimento, será de extrema delicadeza e equilíbrio para que eu não atropele, ou incentive, ou ainda, influencie quaisquer cenários. Não serei digno de interpretá-lo, e como já mencionado acima não possuo a habilidade para tal feito. Este será apenas um registro desta manhã única que me abalou de maneira inimaginável, ao ponto de me fazer criar este registro.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

A noite não existe

Estrangulado ao amanhecer
lutando pela névoa se desvencilhando dos pesadelos
eu continuo pela rua errada
eu continuo lutando para permanecer são
Atordoado com o sol nascente
Vista embaçada desatando os nós
eu continuo errando as mesmas pistas
eu continuo lutando pela liberdade
 
Ao longe as sirenes ecoam pela cidade fantasma
Ensurdeço-me ao meio-dia
o rosto queima no asfalto sem memória
eu continuo buscando por paz
eu continuo lutando para permanecer são 
Vazio contínuo em tardes nebulosas
O crepúsculo avança em silêncio irreal
A noite não existe, eu não existo...

A noite é ilusão de quem não viu o sol

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Cada Momento

Um adeus, uma palavra... 
um sopro de vento pelas folhas
Um sinal, um olhar... 
uma luz por entre as árvores antigas
 
Quando estou sozinho não tenho 
dúvidas de minhas sombra...
Quando o sol se põe não tenho 
mais os medos que me seguiam...
A cada momento sinto o pulsar
A cada momento ouço meus próprios sonhos

domingo, 10 de outubro de 2021

Daria no mesmo, no mesmo lugar

sim, eu poderia
daria no mesmo
seguir ou parar, correr ou ficar
eu conseguiria? não por muito tempo
daria no mesmo
as voltas que o relógio dá
e sempre volta para o mesmo número
não, eu não poderia ir tão longe
nem seguir, nem correr
apenas as dores me compreendem
no mesmo lugar
daria no mesmo
sendo dia ou sendo noite
meus pensamentos se contorcem
meus músculos se distorcem
e nada seria como antes
sim, eu continuo aqui
escrevendo ou não eu brinco com o tempo que resta
pois, daria no mesmo?
que tempo? que lugar?
eu poderia parar, mas minha mente não
eu poderia pensar, mas meu corpo não
quanto tempo resta para ver
daria no mesmo
o tempo não se manifesta
não me atinge e não me altera
daria no mesmo,
lembrar...